domingo, 27 de junho de 2004

Estava em minhas andanças de desempregada, a caminho dos Correios para postar uns currículos, numa bela manhã de terça com um sol agradavelmente quente que me fazia sentir bem por estar andando um pouco. Estava um tanto aérea, os pensamentos a mil, mas com os olhos atentos, observando o movimento da cidade, quando avistei à frente uma jovem senhora acompanhada de uma menina de cabelos loiros e longos, vestida com o que parecia ser uma de suas melhores roupas, com um caminhar descontraído e despreocupado.
Acompanhei sua aproximação até o encontro inevitável e lancei um sorriso em sua direção, como se ao mesmo tempo quisesse lhe dizer um oi e cumprimentá-la por emanar tão espontaneamente aquele ar de doçura, simpatia, simplicidade e inocência.
E como é raro nesses tempos em que as pessoas não mais se olham e muito menos lançam olhares de simpatia para com o outro, aquela menina retribuiu meu gesto com um singelo e jovial sorriso, daqueles que valem mais que mil elogios e que fez correr por minhas veias a tal da felicidade.
A surpresa daquele encontro me impulsionou a olhar para trás, como para me assegurar que aquela menina realmente existiu.
E qual não foi minha maior surpresa, meu olhar deu de encontro com os dela, também estava a me fitar. Talvez ela tenha sido levada pelo mesmo impulso surpreendente que eu e isso somou mais um instante memorável àquele encontro improvável.
Agora me pergunto sobre o que deve ter passado pela cabeça daquela menina que no auge dos seus prováveis quatro ou cinco anos de idade foi capaz de um gesto tão encantador? Não sei.
E há anos luz de portar qualquer traço de pedofilia, se aquela pequena menina somasse uns 20 anos aos seus quatro, eu não a teria deixado partir sem antes perguntar seu nome e lhe dizer que, sem nada dizer, ela me havia feito uma mulher feliz...

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Continuando o espírito de recomendações, é legal dar uma lida no prólogo escrito por Michael Moore especialmente para a versão em português de seu livro Cara, cadê meu país?. Ele usa de toda sua irreverência para cutucar mais uma vez o Bush, os americanos "no brain", e dá uma luz no que anda rolando dentro dos E.U.A., quais as posições quanto ao caso Iraque e mais ou menos o que a galera de lá anda pensando.
Bom saber que nem todo americano diz amém para as decisões do seu governo.

sábado, 19 de junho de 2004

Estamos em avançados 6 meses passados do ano de 2004 e, por enquanto, nada. É isso, se existe alguma data limite que estableça que o prazo para as coisas darem certo irá terminar, começo a acreditar que este dia está para chegar.
Correr contra o tempo nesta altura do campeonato não me parece uma decisão favorável, pois, além do fato de que é impossível ultrapassar o tempo, esta corida, provavelmente, provocaria um ataque cardíaco nesse coração sedentário e desacreditado.
A esta altura não quero acreditar em mais nada além da lei da relatividade do tempo, quero ser pega de surpresa pelas forças ocultas do que considerava acaso, coincidência e, até mesmo, despropósito.
O que quero dizer com isso: chega de tentar das explicação para o que acontece ou deixa de acontecer. Quero acabar em mim com um certo ranso cristão de tentar encontrar um culpado para tudo. É uma boa atitude a se tomar, principalmente quando a máscara de Judas acaba na minha cara por mais vezes do que eu gostaria.
Isso não equivale a uma tentativa de me livrar da minha parcela de responsabilidade sobre minha vida, meu futuro ou o jeito como me visto. É só que as vezes existem outros fatores que influenciam o curso dos acontecimentos, ou então o que explicaria um dia típico de inverno no mês de janeiro em Fortaleza? Deus querendo estragar as férias de alguém?
Mais uma vez, é isso. Quero escrever uma história repleta de lacunas, linhas em branco, personagens sem nome, sem passado ou futuro. Quero seguir o fluxo, mantendo os olhos abertos para evitar as pedras visíveis no caminho, os buracos mais profundos e os extensos muros de pedras. Quero dar a volta ao mundo, descobrir o que há lá fora e, ao cruzar a linha de chegada, serei a primeira a abraçar tudo o que ficou para trás e dar-lhes o último adeus; e irei passar direto pela velha eu que já não reconhecerei e que ainda estará na linha de partida tentando decidir para que lado ir.

terça-feira, 15 de junho de 2004

Acessem este site: Basta!. Tem uma galera no Rio que tá tentando organizar um protesto que pede Basta! à violência no Rio. Lance sério, organizado, pelo menos esta foi a impressão que me passou ao ver a entrevista do Jô Soares de hoje com uma mulher que começou com este movimento que consiste em convencer as pessoas que estão indignadas com a situação a colocarem faixas de protesto nas fachadas das casas, comércios e etc. Eles queres enfaixar o Rio, este é o slogan. Esse é o movimento. Pode ser o início de uma reação popular que vai mudar o curso das coisas. Quem viver, verá!
O Saramago é realmente um escritor fabuloso. Ele tem um poder descritivo inexplicável, emocionante até! Li "Memorial do Convento" e adorei, não só porque ele me foi um aconchego nos tempos de França, me ajudando a me reaproximar da Língua Portuguesa, mas gostei porque nunca tinha sentido o tipo de emoção que senti com a leitura, momentos de genialidade do autor.
Por me reavivar a genialidade de Saramago, quero postar um trecho de um livro dele publicado pelo Altieres e junto a gravura postada junto.

Trechos de MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA
JOSÉ SARAMAGO - 1976

"... A pobre Adelina, como eu me divirto a chamar-lhe de mim para mim, é muito menos "pobre" do que eu disse: deita-se comigo, consente e exige que eu entre nela (essa virtuosa transposição resulta em obscenidade total, pois, literalmente, entrar eu nela significa que todo me reduzi a uma dimensão milimétrica, a qual me permitiria digressar [prefiria que se pudesse dizer digredir] no interior dela, ou, pelo contrário, que esse mesmo interior ganhou tamanho de catedral, basílica de S. Pedro, igreja de Notre-Dame, gruta dourada e verde de Aracena, por onde passeio [penetro] em meu natural tamanho, patinhando nos humoreses, nas secreções, repousando na turgidez das mucosas, e avançando sempre até o segredo do universo, ao laboratório dos ovários, ao estentor das trompas [mudas] de Falópio, respirando os cheiros primordiais da terra ali resguardados e em todos os sexos de mulher, agora já sem obcenidade, porque o sexo não é obceno, isto é uma coisa que sei hoje) e por causa desse entrar nela, e ela estar, sem verdadeiramente o querer a minha vontade, na vida geral em que eu tenho parte e ela parte, e ambos num rebordo comum, numa cimalha estreitíssima de Chartres, não posso dizer "pobre Adelina" nem esquecê-la. No interior dela derramo de cada vez milhões de espermatozóides de antemão condenados à morte, envolvidos num fluído gomoso que sai de mim arfando, e mesmo não a amando eu nem ela a mim, nenhum de nós escapa ao brevíssimo momento em que os corpos lassos e satisfeitos repousam, o meu, quase sempre sobre o dela, o dela às vezes sobre o meu, e também sobre o outro o um de nós que suporta o peso do outro. No fim do acto sexual (também chamado acto do amor), o corpo de baixo pesa sobre o de cima, e quem isto não descobriu nunca, não tem corpo nem sexo nem consciência de si. Duas vezes se exerce então a força da gravidade, não para se anular, mas para ser total o esmagamento. Porque a levitação dos corpos não é possível quando o sexo do homem ainda está profundamente ancorado no sexo da mulher, derramando ou tendo derramado a branca secreção dos testículos e banhando-se entre as paredes rubras ou róseas, e ardentes, ao mesmo tempo que a remotíssima tristeza do coito cobre de véus o cérebro e esboroa um a um os membros abandonados." (p. 55 e 56)



Edward Hopper - "Eleven Am" 1926

Entenderam o por quê?
A emoções não são regidas pelas mesmas leis que regem a existência humana.
O homem criou e adotou o tempo como um dos principais eixos de referência e fundou, com isto, a História. Mas ao fazê-lo criou também para si uma prisão sem muros. Vivemos aprisionados ao presente, ansiosos por um futuro incerto que desfará as certezas do passado. Nosso corpo é nossa cela, e o que nela habita, ali fica e persiste em ser o que é, mesmo fantasiado, travestido ou disfarçado, faz de nós (cada um) o que somos, invariavelmente mutantes.
O que por vezes escapa a esta cela são as emoções. Estas, ao contrário, desconhecem o tempo e podem, a qualquer momento, como observou Freud em sua obra, irromper tão intensamente quanto no momento primeiro em que se deu, como a sua lembrança mais triste da infância ainda te leva as lágrimas como se tivesse acabado de acontecer.
Certos fatos vividos fazem reféns emoções que, por sua rebeldia, não se manterão assim, e escaparão, seja lá como for, de uma forma ou outra, amanhã ou daqui a 20 anos.
O que trancafiei aos 4 anos (*), hoje, aos 24, ainda corre a canequinha pelas grades tentando me chamar a atenção. E enquanto eu me mantiver aqui, firme, soldado raso que apenas obedece as ordens de um superior desconhecido, alienado embaixo do capacete, não haverá chance de qualquer emoção que seja encontrar a saída certa dessa incabível prisão.

(*) chute cronológico

quarta-feira, 9 de junho de 2004

Estou eu aqui em cima de novo, totalmente paralisada, só conseguindo olhar para os lados e pensando: "O que é que eu vou fazer agora? Para que lado eu vou?"
Já me vi por tantas vezes nesta mesma situação que começo a pensar que é justamente a tensão de ficar olhando as possibilidades aqui de cima, pesando infinitamente os prós e contras de se escolher um dos lados desse muro, o que me faz continuar aqui. É, praticamente, a realização de um desejo da mesma natureza daquilo que dá prazer ao masoquista, a dor.
Dá uma sensação paralisante no momento em que são colocadas as alternativas, como um branco total na mente e no corpo que não faz nenhum movimento, muito menos em relação a dar uma solução ao problema. Escolher é um problema. Ou ficar totalmente imóvel seja o problema. Ou o problema está exatamente num acontecimento um tanto anterior e decisivo para que as coisas tenham chegado até esse ponto: o fato de eu ter nascido.
Sim, estou em cima do muro e não consigo sanar mais uma das dúvidas que parecem desafiar meus sentidos, principalmente, o de realidade. Ficar nessa situação de dúvida eterna não é nada legal, e, aliás, não vejo nenhuma vantagem em se ficar em dúvida sobre as coisas, não me ocorre uma agora.
Pensem comigo: se você tem que escolher entre duas coisas, e isso deve ser feito para que a vida possa seguir o seu curso, seja ele qual for, por que então enrolar ou empacar a vida por causa disso? E aí, eu penso: porque existe uma coisa coisa chamada insegurança. Insegurança descreve o estado da pessoa que, mais do que uma incerteza, ela não tem confiança em si mesma.(*)
Isso é, no mínimo, triste. Confiar em si mesmo é muito necessário para que uma pessoa saía por aí e dê um rumo à sua vida. E para mim tudo isso é muito confuso, porque mesmo que eu saiba do que se trata, ainda não consigo mudar esse meu jeito de ser empacada. Que droga, do que me serve ter um monte de amigos psicólogos e não rolar de usufruir dos seus bons serviços...
E como a minha ainda atual condição de desempregada não me permite sequer sonhar com uma sessão de terapia, me resta fazer aquilo que muitos de nós aprende a fazer quando as saídas são escassas - começa a se virar (claro, depois de dar uma passadinha nas profundezas da depressão - mas isso não é obrigatório para todo mundo, ainda bem). Vale dizer que um pouco de angústia é sempre necessário para querermos mudar.
Fiz o maior "esforção" e espero ter dado início ao movimento que irá me levar para a grande virada, e 180 graus é um longo caminho a percorrer. Quando eu chegar lá, eu aviso...

(*) Ref. "Dicionário de sinônimos da Língua Portuguesa"

Pior que um coração partido, é uma alma vendida - Senadora Heloísa Helena, Programa do Jô (08/06)

sexta-feira, 28 de maio de 2004

Nossa! Acabei de assistir pela quinta vez ou mais, o filme "Um sonho de liberdade". Olha, não é a toa que eu vi tantas vezes esse filme. Já fazia um tempão que eu tinha visto, já tinha esquecido boa parte das coisas, só lembrava o grosso da história. Mas o que é realmente impressionante nesse filme são os detalhes que tem na história; esse filme tem uma trama meticulosamente arquitetada pela mente de um prisioneiro de uma rigorosa penitenciária, essas tipo "de segurrança máxima". Mais do que uma grande aventura, a história narra, com poesia, sobre a amizade, que é colocada como o "além da trama", deixando ainda mais emocionante o final - que é claro, eu não vou contar. Confesso que fui às lágrimas no momento em que a trama começa a se desenrolar, é lindo. Acho que a história faz sentido no momento do desenrolar da trama, pois, por conta de uma das cenas anteriores, dá o sentido de que se está realizando um sonho. É sempre bom ver sonhos realizados, ainda mais os que são narrados com tanta poesia, que já começa no título - no caso em português, que, em sendo uma excessão, imprime muito bem a idéia do filme - "Um sonho de liberdade". Espero que depois disso, as pessoas que ainda não viram esse filme, estejam com vontade de ver. Vale a pena.
Só agora que ficou mais claro para mim um dos assuntos do filme - amizade - é que eu gosto muito de filmes que falam de amizade, ainda mais o que são poeticamente narrados - e é só por isso, viu, pessoas que me conhecem, que eu gosto de "Tomates Verdes Fritos". Aliás, recomendo também, principalmente pensando que é uma história que fala de amizade.
Gostaria de falar sobre amizade, mas acho que ainda não é a hora. Vou pensar melhor sobre isso. Não que eu não saiba o que é amizade, pois posso me considerar uma pessoa com muita sorte, e porque não qualidade, em matéria de amigos. Mas acho que justamente por isso, tenho que ver bem o que vou escrever.
E como sei que muitos dos meus amigos lêem esse blog, não vou arriscar escrever qualquer coisa, né?

quarta-feira, 26 de maio de 2004

Sabe aquele momento nas entrevistas chamado "ping-pong" ou "jogo rápido", onde se lança uma pergunta e a resposta deve ser breve? Então, sempre perguntam: Arrependimento? Por muitas vezes ouvi pessoas respondendo que não se arrenpendiam de nada, que não devemos nos arrepender das coisas que fazemos e imendavam uma lista enorme de conselhos tirados, provavelmente, dos livros de auto-ajuda.
Aí, eu, jovem telespectadora, ficava me achando a pessoa mais imprestável do mundo porque, assim que se fazia a pergunta, já ia pensando num cem número de coisas das quais me arrependia profundamente de ter feito, não feito, falado, não falado... Em consequência, minha autoestima caía a zero e eu, mais uma vez, me igualava às hienas africanas que vivem da podridão. Oh, céus! Que drama.
Isso só soma mais uma coisa da qual eu me arrependo, a de ter tomado a verdade dos outros como minhas e ficar me arrependendo daquilo que nunca fui por estar sendo eu mesma.
Se arrepender não precisa ser uma coisa horrível, daquelas "vamos falar de outro assunto, por favor". Tem algumas coisas das quais fico feliz de me arrepender, aquelas que se cospe pra cima e acaba caindo bem no meio da testa, por exemplo:
* Ter recusado convites para sair, fazer balada ou outros eventos por vergonha de não saber dançar e, principalmente, porque achava que eu era a pessoa mais sem assunto do mundo e acabaria criando situações chatas, de silêncios incomôdos. Hoje, tendo condições, não recuso um só convite para ocasiões que me pareçam uma boa oportunidade para conhecer, ver ou rever pessoas.
* Ter pensado e falado mal da região sul do país, a qual acreditava que não tinha nada de interessante e de que seus habitantes não passavam de pseudo-europeus que excumungavam seus ancestrais por terem vindo para um país sub-desenvolvido. Para minha grande surpresa e, porque não dizer, sorte, uma estadia de quatro dias em Porto Alegre me fez mudar radicalmente de idéia, a ponto de passar a pensar seriamente em viver naquela cidade maravilhosa, com pessoas educadíssimas e lindas.
* Ter deixado de posar para muitas fotos das quais tirei e ter a sensação, vendo-as hoje, de não ter feito parte daqueles momentos. Hoje em dia sou figurinha carimbada, adoro aparecer nas fotos, tanto minhas como de amigos ou de qualquer um que não se incomode com a minha presença no enquadramento.

Se arrepender é um exercício de tolerância consigo mesmo. E ele te dá oportunidade de fazer diferente, acho que isso é importante, a partir do momento em que você se arrepende você pode escolher mudar.
Se arrepender, para mim, é como me dar uma nova chance de sentir e viver as coisas para as quais, em outros momentos, estava insuficientemente atenta para perceber que haviam nelas um sentido de existirem ou de serem como são.

quarta-feira, 19 de maio de 2004

Olha, devo confessar a todos que eu gosto de estudar. Para alguns pode parecer muito estranho gostar de uma coisa da qual, por muitas vezes, as pessoas reclamam de ter que fazer.
Pude, faz pouco tempo, ter o prazer de assistir essa aula. E como já fazia algum tempo que não tinha, senti com maior/melhor gosto viver essa experiência.
Mas agora eu fico pensando, por que é que eu gosto de estudar? O que poderia explicar esse meu gosto?
Bem, é claro que eu considero as coisas clichês tipo que estydar te faz aprender sobre as coisas e tals. Mas, levando em conta que gostar de alguma coisa querer dizer que isto lhe proporciona, sobretudo, prazer, parece-me mais fácil, desse modo, encontrar as razões para gostar de estudar.
Sinto um imenso prazer quando, em sala de aula, ouço alguém falar com propriedade e bom senso o proposto, e se permite sair deste sempre que novos caminhos se fazem mais interessantes de serem seguidos.
Sinto imenso prazer de ver alguém falar com clareza e fluência idéias, por vezes, complexas e intrincadas, mas que sua retórica as fazem parecer uma simples questão de lógica.
Estudar envolve também o prazer de manusear livros e outras tantas formas em que é apresentada a palavra escrita. Não posso descuidar aqui e acabar falando do prazer da leitura, porque dá margem a outra via de pensamento...
Algumas vezes, estudar pode criar aquelas situações em que temos que nos pegar com ímpeto à tarefa de ler, mas é tão bom quando nos deparamos com teorias, idéias ou pensamentos, histórias de vida, de lugares ou de coisas, tão interessantes, instigantes e tocantes que te fazem ter a sensação de que não está sendo um tempo perdido.
Está aí, o estudo como algo prazeroso, ao menos para mim, envolve poder se prender a uma tarefa na qual tem-se a sensação de que se está aproveitando a vida e agregando, a cada idéia, uma nova parte do mundo à si mesmo.
Vou me permitir deixar uma mensagem de Baruch de Espinosa, filósofo nascido em Amsterdam. Tem uma biografia fabulosa e suas idéias são realmente muito avançadas para a época em que ele viveu. Ele nasceu em 1632 e morreu em 1677. E como todo bom pensandor, morreu de Tuberculose.
Mas demos a palavra a Espinosa, às suas idéias:

"A filosofia de Espinosa é uma crítica da superstição em todas as suas formas: religiosa, política e filosófica. A superstição é uma paixão negativa da imaginação que, impotente para compreender as leis necessárias do universo, oscila entre o medo dos males e a esperança dos bens. Dessa oscilação, a imaginação forja a idéia de uma Natureza caprichosa, dentro da qual o homem é um joguete. Em seguida, essa concepção é projetada num ser supremo e todo-poderoso, que existiria fora do mundo e o controlaria segundo seu capricho: Deus. Nascida do medo e da esperança, a superstição faz surgir uma religião onde Deus é um ser colérico ao qual se deve prestar culto para que seja sempre benéfico. A superstição cria uma casta de homens que se dizem intérpretes da vontade de Deus, capazes de oficiar os cultos, profetizar eventos e invocar milagres. A superstição engendra, portanto, o poder religioso que domina a massa popular ignorante. O poder religioso, por sua vez forma um aparato militar e político para sua sustentação, de forma tal que a superstição está na raiz de todo Estado autoritário e despótico, onde os chefes se mantêm fortes alimentando o terror das massas, com o medo dos castigos e com suas esperanças de recompensa. Toda filosofia que tentar explicar a Natureza apoiada na idéia de um Deus transcendente, voluntarioso e onipotente, não será filosofia, será apenas uma forma refinada de superstição."

De repente sinto como se tivessem aberto meus olhos e algora eu esteja realmente enxergando... Quem não diria que este cara foi um profeta, hein?

quinta-feira, 13 de maio de 2004

13/05/2004

Quem acompanha minimamente aos noticiários já deve estar sabendo do mais novo escândalo jornalístico protagonizado pelo correspondente do jornal ameircano The New York Times Larry Rohter, acusado também na Argentina de ter publicado notícia falsa sobre a tentativa de formação de um Estado independente da Patagônia.
Sem querer aqui questionar a tão ovacionada liberdade de imprensa, que, por muitas vezes, trás aos jornalistas a impressão de que têm passa livre para falar o que bem entendem e ainda se acharem nesse direito, o negócio é que, sem sombra de dúvidas, este jornalista conseguiu o que queria: desviar toda atenção nacional e internacional dos assuntos sérios para se concentrarem numa noticiazinha totalmente infundada como esta que ele quis, com muito pouca sutileza, acusar o nosso presidente deter algum problema com álcool.
É mais do que claro ser esta uma inverdade, o que, pensando na vida que levou Luis Inácio, as condições em que foi criado e depois vê-se como um metalúrgico, trabalhador, explorado e com salário baixo, não seria incomum e muito menos repreensível que ele tivesse passado por algum tipo de adicção. Vida essa muito diferente dá que viveu George W. Bush, mas que não o livrou de ter problemas com álcool. Se alguém não sabia, Bush é um alcoolista abstênico e, como é certo, nunca foi colocada em dúvida sua competência levando-se em conta este seu passado.
Agora todas as críticas estão recaindo sobre o governo por ter tomado a decisão de expulsar o jornalista descuidado de nossas terras. Ora, não vou dizer que achei ruim, pois o cara pegou pesado, mas também não sei avaliar se a decisão do governo foi a mais acertada, mas todo mundo está acusando o governo de ter assumido uma posição que não condiz com o espírito brasilerio de liberdade e democracia.
Quer dizer, esse negócio de tomar atitudes drásticas não é a nossa cara, por isso estamos fadados a sempre ter que ser os bonzinhos e politicamente corretos. Bem, pelo jeito foi por esse mesmo parâmetro que os E.U.A. proíbe, desde 1949, um jornalista estrangeiro de entrar em seu país por ter feito críticas à bomba atômica; e que mais recentemente, o cantor Caetano Veloso teve que cancelar shows nos E.U.A. por ter feito críticas ao atual presidente norte-americano. Esta informação foi dada no Jornal da Cultura. No Jornal da Globo, soma-se a notícia da expulsão de um jornalista iraquiano dos E.U.A., o único dessa nacionalidade que lá havia.
O que esta situação me lembra é que, como nos desenhos animados, os mauzinhos, volta e meia, põem em ação seus planos diabólicos, são acusados, julgados e punidos, mas ganham novamente seu direito de errar. Já os bonzinhos, quando saem da linha, são amplamente criticados e suas atitudes erradas não têm perdão. No mínimo têm que deixar o planeta para reparar o seu dano.
Só espero agora que as peripécias desse jornalista yankee não venha manchar, mais do que já coseguiu, a imagem do país e da figura do presidente.
E que sejam, sim, mandados para o espaço todos os mentirosos, caluniadores que fazem uso de má fé de um veículo tão vital para a concientização mundial dos fatos que determinam sermos, hoje, a sociedade desumana que somos.

segunda-feira, 10 de maio de 2004

Uma daquelas coisas difíceis de explicar é o nosso gosto por música.
As infindáveis possibilidades de construção de uma canção, levando em conta o conjunto de sons, tons, notas, tempo..., faz nascer um número tão vasto de estilos e rítmos que fica até difícil dizer qual o som que mais se gosta.
Tudo bem, eu sou daquelas que na frente do nome está um sinal de igual e depois vem escrito "dúvida", o que não me faz a melhor pessoa para fazer escolhas, então prefiro, no que diz respeito a música, me considerar uma pessoa eclética - talvez para aliviar minha insegurança... mas sobre isso eu falo outra hora.
Pois bem, o que estou querendo dizer é como eu acho incrível que seja possível certas identificações com um determinado tipo de música. E nesse campo, é fato, não existem fronteiras e/ou barreiras.
Neste caso me considero um bom exemplo. Não sei se é falta de sensibilidade nos ouvidos, mas tenho, na mesma lista de reprodução, sons que vão de Renato Teixeira, passando por The Smiths, Tracy Chapman, Evanescence, até a minha mais recente paixão auditiva, Souad Massi. Trata-se de uma cantora argelina, que se refugiou na França e lá passou a colocar em melodias todo seu sentimento e emoção no mais belo estilo...árabe!
E aí se explica, ou melhor, não se explica, o que me faz gostar desse som composto por instrumentos estranhos e numa língua completamente incompreensível que não me permite, sequer, imaginar qual o assunto que está sendo tratado na música. O que posso dizer é que quando a ouço cantando me desperta aquele sentimento que comumente nos referimos como COISA. É isso, me dá uma COISA que vem de dentro e se espalha pelo corpo inteiro, cada póro, provocando um certo arrepio e um sentimento de "bem-estar", ou seja, desperta coisas também inexplicáveis, que sentimos não sabemos bem como nem porque.
Será esta a mesma coisa o que explicaria dentre tantos bilhões de habitantes neste planeta, encontrarmos um(a), aquele(a) que se vê (ou não se vê, porque os cegos também amam), se conversa ou, sei lá, aquele(a) que quando se dá conta, já era, acende a luzinha e vem aquele pensamento: é isso!!
Vejam bem, não estou considerando aqui nenhuma relação de tempo envolvidas neste fenômeno, só estou pensando mesmo no momento em que acontece. E eu me lembro bem do momento em que me apaixonei por Souad Massi: ouvi sua bela voz ao acordar no meu segundo dia de estágio numa clínica psiquiátrica na França, depois de um dia extremamente cansativo em que não entendia uma só palavra que me era dirigida.
E do desespero da incompreensão absoluta, aquelas melodiosas frases em árabe me disseram tudo o que eu precisa ouvir: a melodia, as notas, os tons, nem mesmo as palavras explicam; o que melhor se explica é aquilo que se sente.

quinta-feira, 6 de maio de 2004

Faz um pouco de tempo, fiquei na cabeça com aquela idéia de que o gostoso de não fazer nada é quando você tem alguma coisa para fazer, e quanto mais coisas para fazer, melhor é ficar sem fazer nada.
Pois é, parece brincadeira, mas estou sentindo falta de ter que fazer dezenas de coisas ao mesmo tempo, com aquela sensação de que não estar fazendo nada direito, mas tudo bem. Ainda mais eu que sou uma pessoa totalmente sem limites, me peguei por várias vezes no exercício de tentar chupar cana e assobiar ao mesmo tempo.
Mas agora que ando sem ter que ir a duas reuniões no mesmo horário ou a duas supervisões de estágio no mesmo horário - como aconteceu no quarto ano da faculdade - fico me sentindo uma inútil, aí me deprimo e acabo não tendo vontade de fazer alguma coisa: círculo vicioso.

Sem palavras...


Mas também, isso é culpa desse regime capitalista sob o qual somos obrigados a viver. Faz do ócio algo totalmente indesejável, pois afinal o grande lance é produzir, mais e mais... Mundinho cruel em que a gente vive, não?
Vou ser a prova de que o ócio é um grande ativador da criatividade...me aguarde, mundo cruel.
Só para começar, veja só que foto pitoresca encontrei procurando simplesmente nada na internet...

quarta-feira, 5 de maio de 2004

Para não dizerem que este blog não tem nada de útil, vou fazer algumas recomendações para alimentar a alma de cultura.

Todas as segundas-feiras, na TV Cultura, à meia noite começa o "Universidade da Madrugada". Primeiro passa, todos os dias o "Contos da Meia-noite" (que também passa às 20h) com ótimos textos da literatura mundial interpretados por grandes atores do plantel nacional, tipo Antônio Abujanra, Matheus Nachitergaile, Marília Pera, Fernanda Torres, Giulia Gam, Maria Luisa Mendonça e outros.
Já às segundas-feiras, meia noite e quinze, passa o "Balanço do Século XX", uma palestra televisionada sobre pensadores que influenciaram a construção das idéias do século passado. Já foram apresentados dois programas, sendo um pelo psicanalista Ney Branco sobre o Freud e outro pelo prof. de Ciências Políticas da Usp Gabriel Cohn sobre Weber. Os dois programas foram muito interessantes, os palestrantes muito bons e o próprio programa tem um formato que favorece a absorção dos conceitos. Dá até vontade de anotar...eu, no caso, estou gravando os programas...
Meu blog também é cultura!
Achei legal uma idéia do Weber. Segundo ele, a sociedade é, fundamentalmente, um campo de forças, dinâmica, que gera tensões, cuja função é a construção de vínculos persistentes entre os homens. Gostei desse conceito porque ele explica a noção de ser humano como ser social, que tem na relação com o outro fonte fundamental de existência.
No meu caso, alguns dos outros com quem gostaria muito de me relacionar estão longe, espalhados, literalmente, pelo mundo. E, como para continuar existindo, ando passando muitas horas do meu dia conectada à internet, lendo enlouquecidamente minhas caixas de e-mail (tenho 3, nem sei para que tudo isso!), logada no MSN e, mais recentemente, links de comentários do blog para meu e-mail e visitando os blogs dos amigos. Tudo na tentativa de continuar me relacionando. Só espero, sinceramente, que este relacionamento virtualziado não mantenha esta condição. Que possamos, por circunstâncias, mesmo que as do acaso, voltar aos bons tempos de nossa amizade.
Voltando a falar no século passado, nossa amizade nasceu no longíquo século XX...olha só!
Caramba, acho que eu fiz uma associação de idéias meio ousada, né? Fui de Webber à nossa amizade, ou seja, esse isolamento está mexendo com os meus miolos...

Mudando de assunto, vejam só. Estava atualizando algumas coisas no pc pelo site da Microsoft quando me deparei com o número estrondoso de línguas para as quais o Windows já foi traduzido. São elas: francês, espanhol, italiano, sueco, holandês, noruegues, dinamarquês, finlandês, tcheco, polonês, português, húngaro, russo, grego, turco, chinês, coreano, japonês, inglês, alemão, tailandês, árabe e, acreditem, hebraico e vietnamita. Alguém tem dúvida de que a globalização já está instalada?

Só para terminar, uma frase que recebi do instrutor no curso on-line de empreendedorismo que estou fazendo: "O que quer que possa fazer ou sonhar em fazer, comece-o. Existe algo de genialidade, de poder e de magia na coragem...", Goethe.